A atual edição da Copa do Mundo, que também pode ser entendida como a UEFA Euro2010 em versão africana, vem mostrando inequivocamente que o futebol da América do Sul precisa ser repensado. E existe certa urgência nisso, que deve acontecer antes que esta parte do continente americano vire no futebol o que a África representa para a economia global.
O fato da competição se desenvolver na África confere um realce ainda maior ao domínio que as potências da bola na Europa vêm demonstrando na Copa. Hegemônica no futebol de clubes por conta do poderio financeiro de seus representantes, o continente europeu estabeleceu para a América do Sul o papel de fornecedora de craques, em uma versão boleira e sofisticada do colonialismo que existia dois séculos atrás.
Nele, os países daqui “produzem” a mão-de-obra qualificada que ajuda a valorizar o produto que é oferecido para o consumo do torcedor europeu. E esse modelo gerou ao longo dos últimos 28 anos aspectos positivos e negativos para o futebol da América do Sul, principalmente brasileiro e argentino.
Clubes x Seleção – O primeiro deles foi o gradual empobrecimento do nível técnico do futebol praticado pelos clubes, pois o modelo de negócio amplamente dominante hoje em dia é o que estabelece que o balanço financeiro da esmagadora maioria dos clubes de Argentina e Brasil só será salvo com a venda anual de pelo menos uma jóia ao mercado europeu.
Como isso nem sempre é possível, o balanço em muitos momentos é equilibrado pela injeção de dinheiro de um “mecenas” – normalmente o presidente do clube -, empréstimos bancários ou mesmo adiantamento de cotas de televisão ou patrocínio. E isso faz com que uma futura venda seja ainda mais necessária, pois ela representaria não apenas o desafogo das finanças mas também evidenciaria ao mercado a expertise do clube em revelar craques. Ela auxiliaria na obtenção de dinheiro novo – cujo retorno ocorrerá no ato da venda de um novo craque - para quitar os empréstimos antigos e melhorar sua estrutura.
Assim, para os clubes, estabeleceu-se um perverso ciclo vicioso. O principal problema é que os atores mais importantes dele não estão, pelo menos no momento, muito interessados em nenhuma espécie de mudança.
Fontes alternativas de receita, como patrocínio nas mais diversas partes da camisa, construção de arenas modernas capazes de receber outro tipo de espetáculo que não apenas o futebol, parceria com investidores etc. ainda estão em estágio embrionário demais nesta parte do planeta.
Se para os clubes o cenário é desolador, para as seleções ele é incrivelmente róseo. Na Europa, os craques de Brasil e Argentina contam com máquinas muito bem azeitadas de marketing, principalmente de Adidas e Nike, para fazer com que suas proezas nos gramados do Velho Continente recebam o justo reconhecimento dos amantes da bola em todo o mundo.
Assim, com desembolso muito pequeno de dinheiro e pouco trabalho – em alguns casos nenhum! -, a cada convocação as seleções daqui recebem ícones globais da bola. Como esse tempo em que servem às seleções nacionais é o único período em que os craques podem travar contato próximo com o torcedor local, as confederações de Argentina e Brasil vêm conseguindo contratos de patrocínio vultosos e de longa duração, fazendo com que seus cofres estejam sempre cheios.
Fortalecimento europeu – No entanto, a preguiça e a miopia das confederações de Brasil e Argentina acabaram resultando em problemas para os destinos de ambas as seleções na Copa da África.
O primeiro problema aconteceu com a oferta de material humano em algumas posições. Cientes de que existe maior valorização de atacantes e meias, os clubes locais simplesmente deixaram de se interessar em “produzir” defensores. Apenas isso – ok, a adoção indiscriminada do 3-5-2 pelos clubes brasileiros depois do Mundial da Ásia também tem sua parcela de culpa nessa equação -, pode explicar o fato de que o último lateral esquerdo competente produzido no Brasil tenha sido Júnior, que foi revelado pelo Vitória no meio da década de 1990.
Além disso, existe também a questão da valorização financeira do craque. Na Europa, os dirigentes de vários clubes perceberam de que é mais fácil revelar do que comprar o craque pronto e começaram a criar interessantes estruturas de desenvolvimento para os talentos da bola, sejam eles locais ou de outro país.
O contato com os sistemas de desenvolvimento técnico para os craques daqui vem se mostrando decisivo nesse ponto. La Masia, local onde residem as futuras estrelas do Barça, é o mais emblemático ícone dessa mudança.
Sem a pressa que caracteriza a formação do jogador na América do Sul, os europeus vêm mostrando que aprenderam mesmo a como desenvolver tecnicamente um jogador e puderam mostrar um número grande de craques novos nos últimos anos.
A Alemanha, no elenco que disputa a Copa, conta com mais da metade do elenco com menos de 25 anos. No Brasil de Dunga apenas Ramires entraria em lista semelhante.
O fato da competição se desenvolver na África confere um realce ainda maior ao domínio que as potências da bola na Europa vêm demonstrando na Copa. Hegemônica no futebol de clubes por conta do poderio financeiro de seus representantes, o continente europeu estabeleceu para a América do Sul o papel de fornecedora de craques, em uma versão boleira e sofisticada do colonialismo que existia dois séculos atrás.
Nele, os países daqui “produzem” a mão-de-obra qualificada que ajuda a valorizar o produto que é oferecido para o consumo do torcedor europeu. E esse modelo gerou ao longo dos últimos 28 anos aspectos positivos e negativos para o futebol da América do Sul, principalmente brasileiro e argentino.
Clubes x Seleção – O primeiro deles foi o gradual empobrecimento do nível técnico do futebol praticado pelos clubes, pois o modelo de negócio amplamente dominante hoje em dia é o que estabelece que o balanço financeiro da esmagadora maioria dos clubes de Argentina e Brasil só será salvo com a venda anual de pelo menos uma jóia ao mercado europeu.
Como isso nem sempre é possível, o balanço em muitos momentos é equilibrado pela injeção de dinheiro de um “mecenas” – normalmente o presidente do clube -, empréstimos bancários ou mesmo adiantamento de cotas de televisão ou patrocínio. E isso faz com que uma futura venda seja ainda mais necessária, pois ela representaria não apenas o desafogo das finanças mas também evidenciaria ao mercado a expertise do clube em revelar craques. Ela auxiliaria na obtenção de dinheiro novo – cujo retorno ocorrerá no ato da venda de um novo craque - para quitar os empréstimos antigos e melhorar sua estrutura.
Assim, para os clubes, estabeleceu-se um perverso ciclo vicioso. O principal problema é que os atores mais importantes dele não estão, pelo menos no momento, muito interessados em nenhuma espécie de mudança.
Fontes alternativas de receita, como patrocínio nas mais diversas partes da camisa, construção de arenas modernas capazes de receber outro tipo de espetáculo que não apenas o futebol, parceria com investidores etc. ainda estão em estágio embrionário demais nesta parte do planeta.
Se para os clubes o cenário é desolador, para as seleções ele é incrivelmente róseo. Na Europa, os craques de Brasil e Argentina contam com máquinas muito bem azeitadas de marketing, principalmente de Adidas e Nike, para fazer com que suas proezas nos gramados do Velho Continente recebam o justo reconhecimento dos amantes da bola em todo o mundo.
Assim, com desembolso muito pequeno de dinheiro e pouco trabalho – em alguns casos nenhum! -, a cada convocação as seleções daqui recebem ícones globais da bola. Como esse tempo em que servem às seleções nacionais é o único período em que os craques podem travar contato próximo com o torcedor local, as confederações de Argentina e Brasil vêm conseguindo contratos de patrocínio vultosos e de longa duração, fazendo com que seus cofres estejam sempre cheios.
Fortalecimento europeu – No entanto, a preguiça e a miopia das confederações de Brasil e Argentina acabaram resultando em problemas para os destinos de ambas as seleções na Copa da África.
O primeiro problema aconteceu com a oferta de material humano em algumas posições. Cientes de que existe maior valorização de atacantes e meias, os clubes locais simplesmente deixaram de se interessar em “produzir” defensores. Apenas isso – ok, a adoção indiscriminada do 3-5-2 pelos clubes brasileiros depois do Mundial da Ásia também tem sua parcela de culpa nessa equação -, pode explicar o fato de que o último lateral esquerdo competente produzido no Brasil tenha sido Júnior, que foi revelado pelo Vitória no meio da década de 1990.
Além disso, existe também a questão da valorização financeira do craque. Na Europa, os dirigentes de vários clubes perceberam de que é mais fácil revelar do que comprar o craque pronto e começaram a criar interessantes estruturas de desenvolvimento para os talentos da bola, sejam eles locais ou de outro país.
O contato com os sistemas de desenvolvimento técnico para os craques daqui vem se mostrando decisivo nesse ponto. La Masia, local onde residem as futuras estrelas do Barça, é o mais emblemático ícone dessa mudança.
Sem a pressa que caracteriza a formação do jogador na América do Sul, os europeus vêm mostrando que aprenderam mesmo a como desenvolver tecnicamente um jogador e puderam mostrar um número grande de craques novos nos últimos anos.
A Alemanha, no elenco que disputa a Copa, conta com mais da metade do elenco com menos de 25 anos. No Brasil de Dunga apenas Ramires entraria em lista semelhante.
Além disso, impressiona que Alemanha e Espanha contem com volantes capazes de auxiliar decisivamente o ataque, praticamente meias travestidos de defensores, como Schweinsteiger, Khedira, que acima, em foto do Zimbio, aparece perseguindo Tevez na partida de ontem, Xavi e Busquets, enquanto o Brasil contava com Felipe Melo, Gilberto Silva e Josué.
Apenas o tempo vai dizer se esse domínio europeu veio para ficar, mas o fato concreto é que a bola está com os responsáveis pelo futebol daqui. E é bom que eles comecem logo a pensar no que fazer.